Escuta comparada: Odeon (Ernesto Nazareth)
A noção de arranjo musical é mais complexa do que possa parecer a princípio, pois se conecta de várias maneiras às práticas da composição e da performance musical.
Um dos caminhos mais produtivos para o estudo do arranjo musical é a escuta comparada de uma mesma obra musical apresentada em diferentes arranjos.
Nesta postagem, apresento um exemplo desta prática em torno da obra Odeon, de Ernesto Nazareth (1863-1934).
Neste caso, trata-se de uma obra que possui uma partitura, tendo sido escrita pelo seu autor com a notação musical tradicional. No vídeo a seguir, observamos uma interpretação desta partitura. Ou seja, trata-se de uma versão que pode ser considerada, neste caso, como a versão original da obra.
Embora escritas para piano, esta e outras composições de Nazareth têm sido interpretadas e gravadas por diversos outros tipos de formação musical. E é nesse momento que entra em jogo os processos de adaptação e recriação.
No vídeo a seguir, temos uma interpretação por grupo de choro. Aqui, as práticas da música popular se apropriam da essência da peça para reconstruí-la com uma nova sonoridade. O pandeiro realiza uma levada rítmica constante complementada pelo cavaquinho e pelo violão de sete cordas. As cordas dedilhadas também realizam o acompanhando harmônico, adaptado em tempo real pelos intérpretes para os registros desses instrumentos. A melodia é executada pelo bandolim. A sonoridade geral é característica do gênero choro, retomando e atualizando a inspiração na música popular instrumental urbana que é evidente nas partituras de Ernesto Nazareth.
Por fim, para demonstrar a amplitude que a ideia de arranjo musical pode assumir, apresento uma recriação de Odeon para violoncelo solo. Nesta versão, o intérprete-criador do arranjo concentra-se na melodia que, ela própria, já sugere o contexto harmônico pretendido pelo autor original.
Todas as versões mantém a estrutura original da obra em três partes distintas organizadas pela alternância com a repetição da parte inicial e principal. Essa estrutura é usualmente representada com a sequência de letras A-B-A-C-A, na qual cada letra representa uma parte da obra.
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